O Constrangimento que nos falta: a ética e o desprezo pela humanidade
- afetoedu
- 14 de mar. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 16 de mar. de 2025
by Jan Góes
Esse texto é um comentário a fato real que ocorreu em 2021, numa escola privada em Salvador, Ba.
"Não vamos tomar uma dor que não é nossa". A frase, dita por estudantes da Escola VR diante da leitura de Olhos d'água, de Conceição Evaristo, carrega uma violência que não está apenas nas palavras, mas na indiferença que estrutura nossa sociedade.
Diante de um texto literário que escancara a realidade de muitos brasileiros negros, a resposta não foi empatia, mas distanciamento. O constrangimento dos estudantes, aparentemente incômodo, é só um reflexo da incapacidade social de enfrentar o racismo e, pior, de aceitá-lo como um problema coletivo.

O trecho de Olhos d'água que nos apresenta Duzu-querença é um retrato dessa brutalidade cotidiana: uma mulher negra e em situação de rua, que, ao ser encarada com
asco por um transeunte, devolve-lhe um olhar de zombaria. O homem, incomodado, apressa o passo, temendo ser incomodado por ela.
Mas quem de fato está atrapalhando quem? O homem branco de classe média que desvia o olhar, ou a mulher negra que não tem escolha a não ser existir na margem?
A reação dos estudantes da Escola VR ao contato com a literatura de Evaristo evidencia a ausência de um constrangimento mais profundo: aquele que deveria surgir diante do racismo estrutural, das violências diárias e da desumanização de corpos negros. O desconforto diante da leitura é um sinal de que a literatura atingiu seu objetivo estético e político: provocar reflexão. Mas a rejeição da obra mostra algo ainda mais grave: a persistente negação da realidade.

Denise Ferreira da Silva, renomada pesquisadora do tema racial, aponta que o evento racial é atemporal.
A violência do racismo não tem fim, porque é constantemente reeditada e reproduzida em novos contextos. O que muda são as formas de manifestação, mas não a estrutura que o sustenta. Essa atemporalidade se reflete na maneira como a sociedade lida com o racismo: uma naturalização tão profunda que as mortes, ofensas e violências se tornam banais. Falta-nos o constrangimento ético de reconhecer e combater o racismo.
Quando estudantes, pais e professores rejeitam a literatura negra que denuncia essa realidade, não estão apenas negando a experiência dos personagens, mas recusando-se a reconhecer a história e a dor de milhões de brasileiros.
A negação do racismo é um dos mecanismos mais eficientes para sua perpetuação. Afinal, se não se pode falar sobre ele, como combatê-lo?
A educação antirracista se faz urgente exatamente para que o desconforto gerado por textos como os de Conceição Evaristo não seja apenas um incômodo passageiro, mas uma fagulha para transformação. O racismo precisa ser um problema de todos, e não apenas de quem o sofre. A dor negra não pode continuar sendo ignorada, subestimada ou vista como um fardo alheio.
Enquanto a sociedade brasileira continuar fugindo do debate, acelerando o passo ao menor sinal de confronto com a realidade, continuaremos a ser uma estado que se recusa a se olhar no espelho. E enquanto isso, Duzu-querença segue encarando, esperando que finalmente alguém sustente o olhar de volta, com humanidade, respeito e responsabilidade.
Leia Olhos d'água




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